21.3.09

Encontro

A saudade é anónima
Não diz quem é, nem de onde vem
É inconstante, vai e volta, sem rumo nem direcção
É mais um dos enigmas da vida
O amor e a amizade são seus companheiros,
Na caminhada todos se conhecem, e
No palco contracenam juntos
São aromas do sentimento
Diz-se que saudade é a ausência do essencial,
A raiz da árvore, que dá frutos, sem a água que lhe apaga a sede
O mar que sem suas ondas, se torna artificial
Os seus ingredientes, desconheço
Mas os seus efeitos são meus contemporâneos
A esperança, que se ergue no peito lusitano,
A fé, que se impõe ao nacionalista,
E a solidão, que pertence ao mendigo
Anseio pelo encontro entre a palavra e a sua natureza,
Pelo momento, em que a saudade virá à tona,
Pela tarde em que descobrirei,
O que por detrás de tanta musicalidade se esconde…

Lágrimas

Ó lágrimas que me escorrem no rosto
Ó água da minha fonte
Venham, venham, desçam e ajoelhem-se
Ajoelhem-se a meus pés, peçam
Perdão por terem caído diante dele
Peçam perdão por me envergonharem
Peçam perdão por não serem doces,
Mas sim salgadas como o mar,
Que recebe as águas, que
Com ele se vão encontrar
Nos esconderijos da noite, nas grutas
Do dia, e na frescura do seu olhar
Agora vão, mergulhem no perigo
Nas ondas da pintura, na aguarela
Dos meus olhos e na sede do pincel
Desenhem a arte do pintor, que
Sem saber esboça na tela
A felicidade de uns e a tristeza de outros,
Com a leveza e a criatividade
De quem pega no carvão pela primeira vez
Ó lágrimas, agora que se foram
Não permaneçam sós, unam-se
Unam-se ao arco-íris, que
Sem princípio nem fim,
É imponente e grandioso
Façam de vós as senhoras do tempo
Realcem a beleza das coisas
Façam brilhar o opaco e limpem
As mágoas do lamento
Fujam de quem vos quer,
Abracem-se a quem vos ama
Sejam vocês mesmas, sintam orgulho
Não se deixem derrubar,
Por sentimentos falsos, não!
Não sejam folhas no Outono
Nem nuvens no Inverno
Rebaixem-se com dignidade
Mostrem inocência, não esmoreçam
Na ilusão de representar a aparência
Evitem que o engano vos comova
Impeçam que a fragilidade vos atrapalhe
Não façam mais que a realidade
Tracem as arestas de uma vida
E os caminhos de um cubo, risquem
O papel e a madeira do mais
Superficial ao mais profundo
Alimentem as plantas, e reproduzam
A natureza com um toque de magia
E com toda a delicadeza
Desfilem com elegância
Demarquem os espaços
Não temam os inimigos,
Por meros fracassos